Auto de Vicentanes Joeira

[Anónimo]

Auto novamente feito, no qual se contem muitas graças, e tem uma carta muito graciosa, e entram as figuras seguintes,

f, uma Regateira, uma sua filha, uma comadre, um Vilão marido da regateira, um ratinho por nome Vicente Anes Joeira, um Clérigo, dois Escudeiros que dão uma música no meio do auto, um negro Mestre de Medicina, um Ratinho seu moço, que o negro ensina a curar, 1574.

Mãe

Vem cá moça desfaçada...

Não tens hoje que fazer!

Como és tão descuidada

e não te quer lembrar nada

que, esta manhã molher...

5

Que é da louça que lavaste,

que é da casa que barreste,

que é do comer que fizeste...

Seguro que te lembraste

de quanto hoje comeste!?

10

Filha

Vós mãe, haveis de buscar

quem vos sirva dessa cousa,

porque eu hei-de ser mimosa

pois que Deos me quis dotar

em estremo tão fermosa.

15

Mãe

Nem por isso, filha minha,

há de haver em ti descudo,

que aquele que for sesudo,

se te vir tanto doudinha

vir-lhe-á, aborrecer tudo!

20

Em tua casa, farás

o que te for necessário,

e nisso não perderás;

mas antes, crê, que haverás

mais perfeito, o selário!

25

Eu bem vejo a gentileza

que te quis dar a ventura...

Mas eu não tenho riqueza...,

e agora, ninguém se preza

de casar com fermosura.

30

Deves amar a vertude...

Porque em o fazer assi...,

de virtude, nunca vi

se não que a dita acude...,

e assi pode ser de ti.

35

Filha

Bem vos entendo, senhora,

tenho as carnes mimosas

e cousas desamorosas...,

nom posso sofrer uma hora,

que antes não sofra mil cousas!

40

O mais que posso fazer

é lavrar uma almofada...

Fez-me Deos tão delicada,

que, não posso entender

porque fui tão mal fadada!

45

Mãe

Crê, filha, uma verdade,

que isso é mera preguiça!

Não venha de Deos justiça

que te quebre a gravidade...

Que teu pecado, te atiça!

50

Mui bem vês, tua mãe,

ser uma pobre vendeira...

Que ela, por sua maneira,

trabalha para teu pai...,

que não vale uma joeira!

55

Entra a comadre e diz.

Comadre

Ou da casa! quem é cá!?

Mãe

Jesu! [Eu] Nunca tal vi!

Moça, vê quem bate ali...

Filha

(é) A senhora Inês de Sá!!!

Mãe

Minha comadre está i!?

60

Comadre

Comadre, bem se parece

o vosso muito dormir...

Havemos nós hoje de ir?

Mãe

Vede vós, se vos parece,

se são horas de partir.

65

Comadre

Bem aviados estamos...

São mais que horas, comadre!

Mãe

Pois, que determinais vós?

Comadre

Que chameis a meu compadre

e [que] logo nos partamos.

70

Mãe

Ui, comadre, não vos falo,

é cousa que não se crê!

Inda me dorme, sua mercê

do meu Afonso Gonçalo...

Que negra morte (que) lhe dê!

75

Nunca vi homem tão porco!

Que má raiva salte nele...,

dai-lhe vós ó demo a pele.

Comadre

E se, é tão dorminhoco,

como casastes com ele?

80

Mãe

Comadre, é desuáiro!

Contar-vo-lo, é canseira...

Eu vendia na Ribeira

e no rocio do bairro,

quando ali se fazia feira...

85

Ali, Inverno e Verão,

vinha ele do Celorico,

a vender (a) cabra e (o) cabrito,

e (a) ovelha, e (o) cabrão,

assi, que vos falo isto...

90

[faz gesto]

Eu, mandei-lhe falar nisto,

e, ele qui'-lho fazer...

Comadre, não sam molher

em vê-lo, em seu pouco siso...

Que se não pode sofrer!

95

Comadre

Comadre, crede, que nós

somos más de contentar!

Pois ele é homem singular...

Mãe

Ui, comadre, si quer vós!?

Também me quereis cegar!

100

Por vida vossa, esperai!

Tereis um pouco de prazer...

Moça vai, i-lhe dizer,

que digo eu a teu pai,

que são horas de se erguer!

105

Comadre

Benza Deos aquela filha,

e vo-la guarde de mal!

Fala nela Portugal...

E não é grã maravilha,

pois Deos vo-la fez tal...

110

É fermosa em estremo...

Tendes filha de benção;

tendes o pai no coração.

Mãe

Comadre, sabe ora o demo,

se é ele seu pai, se não!

115

Comadre

Desse jeito aí, me calo!

Vem a filha e diz

Filha

Diz que já se quer vestir...

Mãe

Dizei, Afonso Gonçalo,

são lá horas de dormir?

Vilão

Senhora molher, (feito) se é já

120

que eu me seja levantando...

Mãe

Ora pois! Que estais cuidando!...

Vinde ver Inês de Sá.

Vilão

Inês de Sá, está i!?

Ora aguarde, que já vou.

125

Mãe

Má sopa venha por ti,

e por quem te inda insinou...

Que tu me hás de pôr no fim!

Vilão

Comadre, muito mantenha!

Mãe

Benga Deos a são Tomé!

130

Dize, Afonso da Azenha,

[assi] falas por mantenha

como negro de Guiné.

Vilão

Corpo, ora não de são!

que não foi ora mal tamanho!

135

Mãe

Inda falas, bestarrão?

Vilão

Bofé, que se vos aganho,

que vos mude a condição...

Comadre

Compadre, falastes bem,

isto, é falar de irmãos

140

e fala que mais convém...,

(e) não por beijo vossas mãos;

porque isso, não vai nem vem!

Mãe

Vós, cuidais que a pereira

lá por tempo dá seu fruito!

145

Vilão

Sicais, Vilante Ribeira

cuidara que sabe muito,

(e) chanta-la-ei nu(m)a joeira!

E se eu nego, não me engano,

eu vos sei falar mui bem

150

a língua do castelhano...

Como!? Eu falei ogano?

Que é? Não me entende ninguém!

Comadre

Castelhano eu jurarei

que tendes, (vós) compadre, modos

155

de falar por ante El-Rei!

Vilão

E como ora falarei!

E saber milhor que todos...

Porque está na nossa aldea,

[...]

que diz, que jo tengo vea,

160

para falar em Castela

e nas partes da Rochela!

Mãe

Comadre já ele começa...

Pois inda isto não é nada!

Que se, se ele desempeça,

165

dará tanta badalada

que vos quebre, a cabeça.

Havei, eramá vergonha!

Que vós, sois desonra minha...

Vilão

Quereis-vos calar doudinha!

170

Pó! Dou o decho a peçonha,

que assi é lã bareirinha!

Mãe

Jesu, mana! Quem me o deu

este homem dos chapiteos!

Vilão

Quereis vós, que comece eu

175

com que vos rompa esses véus!?

[…]

Mãe

Comadre, quereis saber,

que há i dia azinhago!...

Deixa homem de tecer!

E procurai de saber

180

semos de ir a Santiago?

Porque Inês de Sá não vem

para outra cousa cá,

e por isso se detém.

Vilão

Vamos pois, iaramá!

185

Mãe

Olhai! O siso que tem!?

E a oração com que parte!

Tu ficarás Madanela

nesta casa, e olha por ela,

e por tua vida, guar'te...

190

Que não saias fora dela!

Contigo, fica Vicente,

às de ter em ti tal regra:

que não fales com gente,

nem alva, nem negra,

195

se me queres ver contente...

Comadre

Benza Deos, minha afilhada,

é de mui boa criançam,

e por isso tenho esperança,

que fará feitos de honrada

200

como quem virtude alcança.

Mãe

Filha, a filha generosa,

na castidade se empacha,

para ser mais virtuosa...

Filha

Senhora, não digo cousa,

205

por que saia sem tacha.

Vilão

Olhai bem que façais,

como filha de benção!

Mãe

Ora sus! Não haja mais!

Dai-me o saio e o bordão

210

e o chapeu e os corais.

E Vicente me chamai.

[E] que venha logo cá!

Asinha, filha acabai…

Filha

Vicente, vai logo lá...

215

[…]

Vicente

Si irei, pois mo mandais!

Correndo logo num pé...

Que por vós, minha alma é

mais negra, se bem olhais,

que forro de cheminé!

220

Vilão

Vicente! Ouves ou não!?

Vicente

Ouço! [E] bem! Que mandais?

Vilão

Vai lá dentro, me acharás

a carapuça e (o) gabão.

Acaba asinha, rapaz!

225

Comadre

Já comadre estais! Mui bem!

Para que é tanto tardar...

Mãe

Filha, torno-vos a rogar,

que não entre aqui ninguém

para convosco falar.

230

Comadre

Ora sus! vamos embora...

Levantai essa fradilha!

Mãe

Ora ficai, minha filha,

(e) guarde-vos Nossa Senhora

de gente de má quadrilha!

235

Vilão

Andai, senhora mulher,

corpo de mim c'o diabo!

Mãe

Vicente! Terás cuidado,

que, não cures de fazer

senão dela, o seu mandado.

240

Vão-se e diz a filha

Filha

Vicente, vai-me catar

a nossa esteira pintada.

Vicente

Oh esteira bem fadada,

quem em ti se há de assentar

trago eu na alma fechada!

245

Filha

Não é pouco atrevimento,

o que este moço trás;

mas, busque eu sofrimento,

que eu levo contentamento

e muito me satisfaz!

250

Porque terei eu crueza

em me [ele] fazer assi?

Pois que, me ele quer a mim,

como tenho per certeza...

Não lhe quero mal, em fim.

255

Dá-lhe a esteira e diz Vicente, consigo!

Vicente

Havia mister o amor

degradado por i além,

(por)que nunca a outrem ninguém

desse ele tamanha dor,

como a mi dado me tem!

260

Vedes vós o rapazete,

tamaninho e guerreiro,

que já quer ser referreiro...

Vedes vós, quem no mete[sse]

ser comigo tençoeito!?

265

Filha

Bem Vicente!? Tu que dizes,

que, estás lá só falando!?

Vicente

Estava eu a Deos rogando,

[por] que me não martirizes,

nem me andes martirizando...

270

(Por)Que tão só c'o teu desejo

me estou eu cá desfazendo!

Filha

Que dizes, que não te entendo!?

Vicente

Que ando assi como te não vejo,

comigo morto vivendo!

275

Filha

Mal se enxerga isso em ti

Vicente, tu és tredor!

Vicente

Na alma trago um ardor

que, morrendo ando eu assi,

c'o desejo do teu amor!

280

Trago, os bofes danados,

e o ventre e as fressuras,

e passo mil amarguras...

Tudo, por teus cuidados!

E dobram-se-me as tristuras...

285

E se, eu ora em ti vira,

uma dor, destas minhas dores,

um cuidado de meus amores,

não andaria tão triste

cercado de mil temores...

290

Se, por não cobrares fama

de crua, e matadora,

não consintiras, tu agora,

que me ardera esta chama,

e afroxára-la, senhora!

295

Filha

Dize, com que te curara eu

esse ardor?

Vicente

Com um abraço.

Filha

Mas, dar-te-ei um baraço!

Vicente

Mas seja, um beijo teu,

que me regue o espinhaço...

300

Oh, não se(j)as tão indinada,

por tua vida, contra mi...

Bofás, que és mais roim

que uma cadela danada!

em pago de ser doudo por ti.

305

Olha, que te quer(o) dizer,

que nunca uma moça vi

tão bonita como a ti...

E de tão bom parecer,

porque, toda és feita assi!

310

Samicas a (m)inha vontade...

No teu cantar e bailar,

(e)no olhar e no assentar,

tens um jeito, que a alma arde

a quem bem te contemprar!

315

Porque, és tão delicada

no teu ar, no teu jeito,

tens um corp(o) tão bem direito,

que nunca vi tão (a)cabada

como a ti!

Filha

É mal feito!

320

Gavares-me tu a mi,

[e] de tanta perfeição...

Vicente

É porque meu coração

trago chentado, em ti,

e na tua desposição!

325

Filha

Andar embora e ter bem!

Olhade lá, o quebranto...

Vicente

Praza o bento Spiritu Santo!

Que, nunca eu veja a ninguém

outro tamanho quebranto!

330

Porque, mor mal queres tu

que me acompanhe a mi,

que me ver andar assi,

feiito botas de mu!?

E tudo por amor de ti...

335

Filha

Vicente, tira lá a mão!

Não te vejam!

Vicente

(si) Tirarei,

mas não já do meu desejo!

Filha

Isso, é muito despejo,

olha que me agastarei...

340

Vicente

Dá-me tu, mana, um beijo...

Que logo me aguardarei...

Filha

Dar-te-ei (u)ma grande figa!

Vicente

Pois, o teu amor me obriga,

aqui logo me matarei,

345

e serás fora de fadiga.

E alma oferecerei

a Deos, pois que ma deu,

e o coração a ti, que é teu,

e então te contentarei!

350

Filha

Dou-te a São Bartolomeu!

Não digas isso, (que) não quero

que te mates tu por mi...

Vicente

Por te ver tão crua assi,

fazes com que desespero

355

que nunca a mais crua vi!

Dize, por ta vida te rogo,

que te pode a ti danar,

deixares de assoprar

os tições deste fogo,

360

que me deixem de abrasar.

Havei ora dó, Madanela,

do triste do teu Vicente!

Havei ora dó, má hora e nela...

E não queiras ser contente

365

de minha grande mazela.

Olha, eu por ti me fino!

Tu me a lembras nas lavradas...

E por ti, tenho eu as fadas

que pode (ter) um homem mofino

370

rebolvido em tais meadas...

Filha

Assi, Deos te de prazer,

que me contes tuas dores

e todo o teu bem querer;

porque, folgarei de saber

375

com quem trazes tais amores...

Vicente

Por isso quero morrer!

Se queres saber com qual

senhora? Por ti me perco...

E, tenho tão rijo mal,

380

que me vou tornando seco

como besta do curral.

E se te deixo de olhar

salta comigo tal freima,

que crê, que mais me queima

385

que água de rosalgar.

[…]

E por tanto hás de saber

que, eu tenho já jurado,

que hás de ser inha mulher!

E hás contente de ser,

390

porque eu sam bem aparentado.

E não me vejas o corpo

que já me o barbigo pinta!

E mais, não sou tão cachopo,

que, tenho espada na cinta,

395

muita vaca e muito porco...

Vê ora, se és contente...

Não me negues conforto.

Filha

Que pode dizer a gente?

Vicente

Dirá, que sois mui prudente,

400

e não matardes um morto...

Ora, queres que nos casemos?

Di, rogocho Madanela!

Filha

Pois, sem mais estremos...

Queres que a tal me atreva?

405

[...]

em que a sorte é escura...

Já que o quis a ventura,

vai buscar quem nos receba.

Vicente

Ah, [mui] bem ditoso moço,

mais que doce fruto em mata!

410

Madanela, minha prata,

escancha-te neste pescoço

antes que de ti me aparta.

Abraça-a e diz

Vicente

Ora, ficai minha frol,

que eu não posso mui(to) tardar.

415

Porque eu quero ir chamar

nestas horas, o priol,

que nos venha ambos falar.

Filha

Faze alguma salsada

que nos caia pouco em bem!

420

Se estiver com ele alguém,

não lhe hás de dizer nada!

Se não só, sem ninguém.

Vicente

Guarde-nos Deos de mal!

Vós cuidais que sam [eu] tolo?

425

Hei-lhe de chegar ao meolo,

e dizer-lhe tal e tal...

Porque, eu não sou cebolo!

Vão-se e entram dois Escudeiros, e diz Pero Camões.

Pero

Senhor, podeis assentar

que é trabalho infinito,

430

de quanto podeis cuidar,

o trabalho do spirito!

Rui

Não tendes que duvidar...

Que, é dos mores trabalhos

de quantos trabalhos vi!

435

Pero

Ora pois, senhor senti,

e vereis, que esses trabalhos,

não podem nascer de mi!

Rui

Não me façais tão sarrado,

porque eu sei, que quereis bem,

440

e que sois mui namorado.

Pero

Coitado de um coitado

que todos trabalhos tem...

Rui

Mas antes, podeis dizer,

coitado do pouco siso!...

445

Pero

Ah senhor! (que) Não falo nisso...

Que é diabo querer bem!?

E mais, quem ama de siso...

Rui

Foi a mais alta pequice,

amores dessa feição...,

450

que se viu, nem que se visse!

Pero

Eu não lhe acho rezão

nisso que agora disse...

Porque o homem que é discreto,

e há de andar de amores,

455

que lá passe suas dores

como poder encoberto...

(e) Não lhe saibam sensabores!

Porque a cousa, é de teor:

que nenhum parvo queria [creria]

460

que houvesse outro mor doutor.

Rui

Chamais-me, por essa via,

muito parvo e sem sabor!?

Pero

Tomai[-o] lá ao revés,

que eu, não no disse por tanto!

465

Rui

Tomo-o em que me pés.

[Pero]

Vós senhor, fazei-vos santo,

e roubais mais que francês!

Sois pregador ensarrado,

e pregais evangelhos meros,

470

e sei que sois namorado!?

Rui

Senhor, estais enganado,

que eu não caio nesses erros!

Pero

Quero eu saber, agora,

pois, o mundo enmendais,

475

porque causa me estranhais

que não sirva uma senhora?

Rui

Ainda vós duvidais!?

Pois haveis de presumir

que enteira como esta é,

480

a ninguém haveis de servir...

Pero

Folgo eu de vos ouvir,

mas dai-me rezão porquê!

[Rui]

[ …]

Pero

Porque a terra é tão pequena

que logo sois conhecido,

485

ou a moça vos acena,

is de todos mui corrido.

Uns dizem, que ela que zomba,

e que vos tem tanto em pouco,

outros mil, vos chamam loco,

490

outros, vos falam com tromba,

(e) havei-vos de fazer mouco!

[Rui]

[ …]

Pero

Eu vejo senhor, que passa,

e sinto que é vergonha,

andar de praça em praça

495

por terra tão enfadonha.

Rui

Eu sei, se não me engano,

que fazeis dous consoantes,

fazeis mil autos, cada ano!

E todos muito galantes,

500

sem fazer a ninguém dano...

Em vós farão aparato,

e sereis favorecido!

Pero

Senhor, eu tenho sabido,

que quem entra aqui em auto

505

o tem por mui abatido...

Porque, se estais falando bem,

um dito muito atilado,

olhai bem para vosso lado,

ouvireis dizer, que vem

510

de serdes desavergonhado!

Vêm quatro moços [ao] auto,

os quais nunca viram gente,

em que o auto fosse quente

dizem que foi muito frio,

515

que não vão dele contente.

Vós estais-vos desfazendo,

e apaixonando em forma

por está-los comprazendo,

eis senhores, vão dizendo

520

que foi muito boa broma.

Rui

Polo tanto, senhor meu,

tendes vós muito empacho

dessas obras de sandeu!?

Pero

Pois, que culpa tenho eu,

525

se eu, figuras não acho!?

Rui

Que, as não busqueis vós na arca!

Buscai-as com diligência...,

e achareis sem aderência

mancebos de muita marca...

530

Figuras, por excelência.

Pero

Eu não sei como vos diga

o que daqui me contaram...

É que anda aqui uma briga,

duns mancebos que emprenharam,

535

e, trazem Reis na barriga!

Cada um destes, tem passos,

que do mesmo mundo dobra,

e dizem que não vão a obra

donde vão trinta madraços,

540

e dela, tão pouco se cobra.

Rui

Segundo são já certos

dizerem males por viço,

têm-vos a vós, por remisso,

e assi, fazem ser discretos

545

e não curam nada isso!

Pero

O que eu aqui sinto mais,

isso, quero eu calar...

Rui

Não quero que mo digais!

Pero

Pois, deixai-me namorar...

550

Rui

Não vos tolho que façais.

Pero

Ora, dai-me o desengano,

de um motezinho, que fiz

a quem sirvo, por meu dano!

Rui

Vejamos pois, como diz?

555

Pero

Diz assi, em Castelhano:

Mote:

No es muy chica merced

si venis mirar al hecho,

ni hazeis contra derecho.

Pero

Se quereis, senhor, saber

560

como vai assi fundado,

i-vos lá sobre um telhado...

Rui

Está o mote atilado!

Pero

Pois a volta haveis de ver.

Volta:

Vos sois vida de mi vida

565

e de cuerpo cuytado.

Hazelde a vuestro grado

como fueredes servida...

Y, si alla estais sobida,

por mirar en este hecho,

570

no hazeis contra derecho.

Rui

Como está, Sancta Maria!

Está cousa singular...

Pero

Senhor, não cure de zombar.

Rui

Que chamais vós zombaria?

575

Não tendes i que tachar!

E por tanto, eu abranjo,

que querer bem, é canseira!

Mas dizei, quem é esse anjo?

Pero

É Madanela Ribeira,

580

em que não há desarranjo.

Rui

Dizem que essa rapariga

que é uma Bersabé.

Pero

Senhor, por me fazer mercé,

que cante uma cantiguinha,

585

caminhando assi em pé...

Rui

Ouvir-nos-á a senhora?

Pero

Sabeis como, que sobeja,

mas a moça não deseja

senão ver-me, cada hora...

590

Rui

Qual quereis senhor, que seja?

Pero

Pode bem, senhor, dizer

esta cantiga, estimada,

que já trago decorada;

que nunca me quer ver

595

nem se tira de almofada.

Cantiga:

Vida minha de meu bem

pois vos sirvo com amor,

tirai os olhos do lavor.

Volta:

Uma vez em todo o ano

600

e se é caso que vos vejo

is-me falar do desejo

e matais-me com engano.

Vós lavrais em vosso pano

mas eu sirvo com amor,

605

tirai os olhos do lavor.

Entra o ratinho e diz Pero Camões

Pero

Senhor, embuçai-vos vós,

porque eu me embuço também,

porque, o seu ratinho vem...

Não conheça algum de nós

610

pela suspeita que tem.

Vicente

Tapai essas queixadas,

(que vos) não [vos] conheçam peçonha!

Quem vos desse mil pancadas...

Dizei, (porque) não tendes vergonha

615

de andar nessas cantadas!?

Pero

Quereis vos calar vilão!

Que ireis daqui escozido...

Vicente

Vós não me eis de pôr a mão!!!

Rui

Quereis fazer onião

620

com que sejamos conhecidos!?

Ora, dai senhor à espora,

e não estemos aqui mais!

Pero

Vamos ambos, juntamente,

nisto assi praticando...

625

Ir-se-á a noite gastando,

e quem for menos contente,

esse tal, vá suspirando.

Vão-se e diz Vicente ao cura

Vicente

Porque eu sei que vós, abade,

sois pessoa virtuosa,

630

vos chamei a uma cousa...

Eis de ter polinade,

porque é muito perigosa.

Cura

Quanto é filho de mi,

vós podeis ficar muito certo

635

que não sereis descoberto,

e havei-lo de crer assi,

que vos manterei secreto.

Seja grave, ou não seja,

toque a pobres, toque a ricos,

640

quanto [se] é desses bicos,

seguro que ninguém (me) veja

sem vontade em mexericos.

(E) Por tanto, podeis falar

o que bem vos parecer.

645

Vicente

Vós padre, eis de saber,

que eu [mesmo] vos fui chamar

que, é cousa de mister.

E por tanto olhai, senhor,

que me haveis de ter calado!

650

Eu queria ser casado.

Cura

Se a moça for contente,

tendes tudo, aviado!

Vicente

E mais que recontente

Cura

E quem é a gentil dama?

655

Vicente

É a filha de minha ama,

que me fez já ser doente

por seus amores em cama.

E agora, quer dar cabo

hai alma e o coração.

660

Cura

E o pai, e a mãe, onde são?

Vicente

São idos a Santiago,

e já hoje não virão.

Cura

Disse ela já que si,

que quer convosco casar?

665

Vicente

Que quer mais que recasar...

Corpo, ora não de mi,

com tanto repreguntar!

Cura

Salamão, em sua lida

e regra, disse assi:

670

maledito que homo

in nei domine confidida...

Pois, dai-me rezam por como!

(A) Tal rezão não é ouvida!?

Que seja! Fero animal,

675

em um necio refalsado,

[que] vai fazer tanto mal

a seu amo mui honrado.

Vicente

Que diabo é o diabo

isso!? São horas de igreja!?

680

Cura

Digo que, embora seja!

E do mais, aqui acabo,

antes que alguém nos veja!

Vicente

Quanta disso, sam contente.

Madanela, saia cá fora...

685

Cura

Senhora, de boa mente

[ …] casais-vos embora

com este moço, Vicente?

Filha

Já que eu a isso vim,

eu muito contente sam.

690

Vicente

Pois quanto eu, senhor de mi,

eis aqui, a minha mão!

Cura

Ora pois, dizei assi:

Eu, Vicente Anes Joeira,

com toda a vontade minha,

695

a vós, Madanela Ribeira,

recebo por mulher minha...

(E) vós, dizei desta maneira:

[Cura +]

[+ Filha]

Digo, eu que sam contente,

sem ninguém me dar dinheiro,

700

de tomar por meu parceiro

a este moço Vicente,

com amor não lisonjeiro.

Cura

Ora, filhos [e] com isto

sois chegados ao amor...

705

Praza a nosso redentor,

que seja por seu serviço.

Ambos:

Amen!

Cura

Aqui n'há mais que fazer

se(j)a para vosso descanso.

710

Vicente

Muitas mercês, Brás Picanço!

Quando for o receber

[…]

[…]

[…]

para outra vez embora,

vireis padre cá comer,

e i com Nossa Senhora.

715

Vai-se e diz Vicente

Vicente

Semos nós assentados

como outros noivos sêm,

e alembre-vos, meu bem,

(de) quantos centos de cuidados

(me) destes com vosso desdém.

720

Filha

Bofá, mal me alembro, eu,

que tantos males vos fiz!?

Vicente

Bem vereis..., o que ela diz...

Que, fui já mais que sandeu,

pelo grande bem que lhe quis!

725

Esmorece a filha e diz

Filha

[Ai!] Jesu seja comigo!

Vicente

Oh! Pela minha mãe torta...

Ó bento senhor São Rodrigo,

ó mulher, não sejais morta!

Ouvis vós, o que vos digo?

730

Falai-me, coração meu,

que me fino em ver-vos tal...

Filha

Oh Jesu! Que forte mal

foi este, que me hora deu!?

[ …]

Vicente

Ide-vos dentro deitar,

735

e afrouxar-vos-á esta dor,

porque eu quero ir chamar

um bacharel ou doutor,

pera que vos venha curar.

Leva para dentro e entra o negro e diz

Negro

Mui gram trabaio que tem

740

homem que misere sentar

sempre homem andar andar.

Gonçalo

Assi [é] senhor, também:

[a] ganhar, ganhar, ganhar...

Negro

Gaiar a mi, quebra dentes,

745

o tera muito roim

e o gimbo pera mim

pera pagai não tem jentes

e responde: baite daí.

Gonçalo

Fazei-me vós, Mestre Gonçalo,

750

(e) eu, sararei os doentes...,

e parai vós! Bem me [entendes](mentes)

nisto, [em] que vos eu falo?

Negro

Como curar boso gentes!?

Se boso não sabe screber...

755

Gonçalo

Pois eu, não posso aprender!?

Entra Vicente e diz

Vicente

Oula, [di] por vossa fé,

pois sois homem de prol,

onde se é Mestre Guiné?

Gonçalo

Vós não vedes que ali sé!

760

Vicente

[Ora,] siquais aquele é!

Gonçalo

Esse, é Mestre Tomé!

Vicente

[Porque] mestre eu entendo...

[É] que, por minha mofina,

minha esposa se me fina,

765

(e) por isso venho correndo

mostrar-vos essa ourina.

Negro

Mosara cá, facutai.

Sabe boso, homem orrado,

esse muer sa prenhado...

770

Vicente

Agora prenhe!? Meu pai!

Vós sois o mestre chapado.

Negro

No há mister mais parola!

Sabe boso que há de fazer?

Bai dar boso, a beber,

775

agoa no erba biola,

então, torna a mi ber.

Vicente

E com isso sarará!?

Negro

Bai boso fazer que digo...

Vicente

Eis-me, vou correndo já!

780

Negro

Gonçalo bem boso cá...

Quere aprender comigo?

Gonçalo

Si. Mas eis-me de insinar

assi, alguma curazinha.

Negro

Como não sabe boso já

785

cosa arguma de curar!?

Gonçalo

Milhor que burra frontinha!

Entra o ratinho e diz

Vicente

Senhor, venho vos contar

minhas paixões mais de mil,

que corri todo o lugar,

790

sem nunca poder achar

viola, senão rabil!

E então, figio meúde,

(e) mandei-o logo cozer,

e demos-lho, a beber,

795

mas, ela não tem saudade [saúde]

nem (nós) temos em que tanger!

Negro

Pardes! [ ] boso sentar

muto grande besa tolo,

s'eu mandar que boso dar

800

agoa no erba biolo...

(e) Boso não sei que falar.

Vicente

Violas de ervas há i!?

Nunca as vi se não de pau!

Mas se vós sois cão mau,

805

que quereis zombar de mi,

i tanger c'um birimbau.

Negro

Oh boso sá mor salvage,

do que nunca posso ber...

bai logo dar beber

810

um poco no agoa borage,

e entam, tornar mim ber.

Vai-se e diz o Negro

Negro

Quero acabar ensinar...

Gonçalo

Que comece de engordar!?

Eu não sam gordo fartura?

815

Negro

Quero acabar ansinar!

Gonçalo

Boa estará a cura

feita de vosso mandar.

Negro

[E] que sentar tu dizendo?

Gonçalo

E eu, que demo hei-de dizer!

820

Negro

O(r)a sus! Comesar beber.

Gonçalo

Eu negro, não te entendo,

nem entendo teu saber.

Negro

Ora sus! Sentar calado,

toma um pouco tormentina...

825

Gonçalo

Que saiba a salve regina!?

Isso é bem escusado.

Negro

E co erba doradinha

fara muto bo mezinha

para (que) te (de) dor de casado.

830

Vem Vicente e diz

Vicente

Lá corremos (todo) o lugar

com todo bom aparelho,

sem lhe uma borracha achar.

E então, fomos lhe dar

a água dum odre velho.

835

E foi de aquesta feição:

Tomei a pele breada

depois de bem cozinhada,

e dei-lhe um bom quinhão,

mas não lhe aproveitou nada!

840

Negro

Jesu! Nome de Jesu!

Esse home sa mofina...

Olhar boso se ele fina!

Homo, abre oio tu,

dai-lhe pruga muita fina.

845

Vicente

Quanta agora, crede que essa

já ela metida vai,

dentro na minha cabeça.

Vai-se, e diz o Negro

Negro

Boso muto bruco sentai.

Olha pera mi co tento,

850

minha saio sa lá dentro,

bai boso logo catar.

Gonçalo

Dizei-me, qual ingoento?

Negro

Não me entender a mi?

Caixa que tem ali fero.

855

Gonçalo

Ora pois, falai dum perro?

Negro

Que dizer boso a mi?

Dizer boso que não quero!

Vai-se Gonçalo e entra Vicente e diz

Vicente

Eu mereço bem [o] sei,

uma grã figa no olho,

860

que nunca uma pulga achei!

E então, senhor, lhe dei

um muito grande piolho.

Negro

Ah boso, [ser] negrigente,

eu dizer pruga botica

865

e boso pruga de gente,

ora, boso embora fica!

Porque, a mi quere, bai

lá fora um pessoa curar...

Que otra gente me chamar!

870

Vai-se e diz Vicente

Vicente

Pó! Dou ao decho aquele

canzarrão de má ventura!

não sabe mais que uma burra

e quer-se chamar Mestre [ele]...

E diz que sabe de cura!

875

Gonçalo

Meu amo, se é ele cá?

Vicente

Sois vós daquele negrão!?

Gonçalo

Não faleis dessa feição!...

Homem baço, eramá!

Se quereis ser cortesão!

880

Vicente

Conheceis-me vós a mi?

Gonçalo

Eu bofás! Bem mal...

Vicente

Não vos vi (eu) no Louriçal?

Gonçalo

Por bem, dizeis vós assi,

cuidei que dizies por mal!

885

Vicente

E não me conheceis primo?

Folgo eu bem de vos ver!

Gonçalo

Quem vos havia de conhecer!

Vicente

Quanto (de) vos achar estimo!

Ora primo quero dizer...

890

E di, rocho... Como vai

a teu irmão, e irmãs,

e teu tio, João das Rãs,

e ta mãe, e teu pai?

Gonçalo

[A] minha mãe, e meu pai...

895

Minha mãe, já ela morreu!

Vicente

Ai eramá, já ela finou?

Gonçalo

Pecador de quem (cá) ficou!

Que ela está no reino do céu,

[a] ver a quem na formou.

900

(Por)que toda a casa cheirou

quando ela assi espirou!

Vicente

Deixou a i alma curada?

Gonçalo

Como? Assi, pera ver?

Vicente

(Dize,) que mandou ela fazer?

905

Fez cédula (antes) de finada?

Gonçalo

Sim fez, e achancelada!

(Com) Suas missas e missões,

(que venham) [com] cregos e procissões;

[e] pera ser bem cantado,

910

(com) missa de nove lições!

[…]

E a terra do val dos agrões,

que era a milhor pera que tinha,

a meu pai, a tença, e mais

toda a metade dos currais,

915

e a nós cada cepa de vinha!

Vicente

Quem na aconselhou assim?

Gonçalo

Meu pai, e o nosso crego,

lhe pregaram o genesim!

Vicente

E é mal, e mal si fim!

920

[…]

Gonçalo

Não se viu mãe tão crua!

E quando, eu vim da arada,

ela, era já papada...

E desfez-se a cédula sua

que estava mal repespegada!

925

Vicente

Estareis magoados, eramá,

por ficardes pobres assi!?

Gonçalo

Da Catalina, me pesa a mi,

que dos homens nada se me dá,

ganharão sua vida per i!

930

Beatriz, e Madanela...

Estão já assoldadas!

Uma delas tem boas fadas,

que está c'o cura da Portela.

Vicente

Essa, está bem, osadas,

935

[] No hajas tu dó dela!

E vossa Joana, a pequeninha?

Gonçalo

Essa, de ver é uma piedade

por ser (moça) de pouca idade,

(está) [é] assi, quebrantadinha,

940

de amor e gram saudade.

Vicente

[E] como queda meu pai?

Gonçalo

[Ele] esta carta, vos manda.

Vicente

E ele, como lhe vai?

Gonçalo

Anda, agora em demanda,

945

[anda] ele, e mais ta mãe.

Vicente

Como queda Breatiz?

Gonçalo

Essa, [se] casou co Pombo!

Vicente

E a filha do Juiz?

Gonçalo

Essa, todo o mundo diz

950

que casou a furto co Longo!

Vicente

Pardez, contais-me façanhas!

E Luzia a rabugenta?

Gonçalo

Essa!? É uma tormenta!

(Saem-lhe) [Sam] casamentos estranhos,

955

mas de nada se contenta!

Vicente assenta-te aqui

um pouco, a me esperar,

que eu, tornarei de vagar

porque quero, ir por i,

960

[a] ver meu amo curar.

Vai-se e entra a mãe da romaria e diz

Mãe

Moça!?

Vicente

Quem bate lá fora!?

Mãe

Abre esta porta, Vicente!

Vicente

Venha com Nossa Senhora!

Mãe

Deos os guarde! E acrecente!

965

Tomai filha a benção aqui...

Que sonhas estando, - ... Vicente

leva este fato daí! -

como estais filha, assi?

Filha

Bofá, estou bem doente!

970

Vilão

Ela, tudo há de falar...

E os outros, não falarão?

Tomai filha (m)inha benção!

e Deos vos deixe bem lograr,

com um marido loução...

975

Entra o Cura e diz

Cura

Ou de casa!? Quem é cá?

Vilão

Se é o dono da pousada!

Cura

Embora seja a chegada...

Pois comadre, que foi lá?

Mãe

Bofá, venho bem cansada!

980

Cura

Isso, é do descostume!

Mãe

No tempo, havemos de falar,

porque vos posso jurar

que me hei-de meter no lume.

[…]

Cura

Ora, quero vos contar,

985

ao que sam aqui chagado,

caso de maravilhar!

Mas foi por Deos ordenado

haver Vicente casado...

Com vossa filha, comadre!

990

Mãe

Jesu! Não digais isso...

Porque, são de calidade,

que, se tal fosse verdade,

sairia de meu siso!

Vilão

E bem, que foi isso compadre!?

995

Cura

Tende paciência pequena,

não sejais desse jeito!

Pois sabeis que há i pena

e is contra direito.

[…]

Eles ambos são casados,

1000

não tendes i que fazer!

Mãe

Jesu! Hei-de endoudecer?

Isto foram meus pecados!

Vilão

Calai-vos, senhora mulher...

Sejam! Sejam muito embora!

1005

Não lhe havemos de dar nada...

Ouvis, senhora esposada?

Cura

Não haveis aqui, agora,

de falar por via escusada.

Mãe

Senhores noivos, andai!

1010

Quanta vergonha (que) trazeis.

Vicente

Ora, não vos agasteis...

(que) Se vós conheceis meu pai,

siquais que vós folgareis!

E se vós a mi não credes,

1015

esta carta, o dirá,

mandai-a ler, pera verdes

se valho algo na terra

em que agora assi me vedes.

Vilão

Ora sus! Não haja mais!

1020

Já que Deos assi o quis

fazer os negócios tais,

vós, por vida, (que) me vejais

a carta (per)a ver como diz.

Leva o cura a carta, que é a seguinte:

Cura

Nosso mui rechapado filho

1025

Nós vosso pai e mãe, nos encomendamos em vossa boa graça, e vos mandamos as nossas benções deste lugar de espada na cinta.

E vos encomendamos a quantos anjos há do mar a marinha, pera vos cotarmos os milhões das saudades que de vós temos, não bastaria quanto papel há no mundo, per cá e per lá.

E por agora não mais se não que queremos casar vossa irmã, co filho do esperdiçado neto do papa-chouriços pede-nos muito em casamento que quer lhe demos dez cruzados em dinheiro, quer a metade do nosso casal não no queremos fazer a te não ver nosso recado.

E por agora não mais se não que todos estamos de saúde ainda que vosso pai treme cada dia maleitas quartãs, e eu sam muito doente da madre.

Dizem que lá há umas nozes que se chamam asnozcadas, ou por i por i, lá o sabeis milhor.

E por agora no mais se não que todos vossos irmãos, e irmãs, e tios, e tias sobrinhos, e sobrinhas, e conhecentes, e conhecentas, todos vos mandam as suas encomendas deste lugar de espada na cinta. Hoje a metade e outros tantos dias do mes Dagosto que vem na entrada de Setembro eu e o tabiliam da terra esta notamos hoje era de mil e vinte e três dias digo anos.

De vosso pai, e Mãe, carta

Vicente

Agora, havemos nós,

que cuidáveis vós aqui?

Que era eu alguém per i!

Vilão

Logo eu disse que ereis vós

alguém, quando vos eu vi!

1030

Mãe

Ora pois, que isto é feito,

não lhe quero ir à mão!

Porém, sabe Jesu Cristo

quanta a minha paixão é!

Cura

Isto só, me contentou!

1035

Pera que é tratar requestas,

se não, fazer-lhe mil festas,

já que o Senhor ordenou

as tais cousas como estas.

Vicente

Folgo, de me isso dizer,

1040

porque essa é toda a verdade!

Mas, vós haveis de saber,

que, é mui grande entender,

o que entende o nosso abade...

Vilão

Vós cuiidais bem que nego

1045

que, ele, é para monturo...

Ele se é um homem duro!

(e) Sabe mais que Gil do Pego,

que aprendeu no monturo!

Cura

Ora pois, quando mandais

1050

que vão, comadre à igreja?

Mãe

O primeiro (dia) santo seja!

Pera que é aguardar mais?

Vicente

Alguém me há-de haver enveja!

Cura

Todo mundo está em fado!

1055

Não façamos mais detença,

vou-me com vossa licença.

[ ]

[ ]

[ ]

Mãe

Pois, antes de nos tornar,

[ ]

cantemos uma cantiga...

Não seja tudo pesar.

1060

Cura

Cantemos, pois vos praz,

cante Madanela Ribeira,

que, há de ir na dianteira...

Vicente

E eu irei cá detrás,

com meu sogro, na traseira.

1065

Fim

(falta a cantiga...)